quarta-feira, 29 de junho de 2016

A (MINHA) DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA

Hoje, bem cedinho, li um artigo na internet que levou o meu pensamento a viajar 20 anos e que despertou a vontade de também escrever sobre este assunto numa perspetiva pessoal. Refiro-me ao artigo "Depressão na Adolescência", do site Up To Kids.

Assumo que, em tempos e durante anos, tive vergonha e receio de falar ou escrever sobre este tema. Não sei se por ser ainda muito tabu e se pensar que apenas acontece "aos outros", se por sentir que assumir que a depressão entrou na minha vida me apresentasse como uma pessoa fraca, medo que sei próprio de quem esconde este seu problema.
Agora, resolvida que estou com este "calcanhar de Aquiles" que me acompanhará para sempre, escrevo sem problemas nem reservas, acreditando até que poderei estar a ajudar alguém.

Tinha 17 anos quando me senti deprimida pela primeira vez. Não triste. Deprimida mesmo.
Há muito tempo que me sentia cansada, ansiosa, impaciente, triste. Começaram as dificuldades de concentração nas aulas, as insónias intensificaram-se e o "mau feitio" foi surgindo e apoderando-se das minhas atitudes e relações pessoais.
Sentia-me quase permanentemente exausta e carente.
Comecei a sentir-me mal em todo o lado, a sentir-me "a mais" e indesejada. Comecei a dar uma atenção redobrada e negativa a pormenores e momentos menos felizes, provavelmente normais e rotineiros para a maioria dos meus colegas e familiares.


Frases como "não estou aqui a fazer nada" ou "não devia ter nascido" instalaram-se no meu pensamento diário e pareciam comprovadas em cada passo mínimo de insucesso, fosse uma simples resposta errada num teste, uns minutos de atraso para apanhar o autocarro ou um "olá" que algum conhecido não me dirigia.
Comecei a reagir de formas opostas e inconstantes perante o que me diziam e o que acontecia no dia a dia: ou com demasiada agressividade e intolerância ou apática e passivamente, perdendo a capacidade de tomar decisões e posições.

Na altura estava a viver o meu primeiro grande amor. Namorava há uns bons meses com um colega da minha idade de quem gostava muito e com quem partilhava tudo. Tínhamos bons momentos juntos e aprendíamos muito um com o outro sobre a vida e as relações. Éramos muito próximos e cúmplices, mas as minhas inseguranças, as mudanças de humor inesperadas e repentinas, a dificuldade em gerir conflitos simples como uma troca de opiniões, bem como os choros e ataques de ansiedade imprevisíveis, foram destruindo a paz no namoro, que era ainda um porto seguro para mim e acabou por ruir.
E a dor intensificou-se.
E o "ninguém gosta de mim" tomou proporções gigantescas e os ataques de choro, angústia e desespero passaram a ter uma justificação (para todos) aceitável.

Não tenho vergonha de dizer que quis muito morrer. Quis. Pensei nisso muitas vezes e achei ser a única solução para tantas dores que, não sendo físicas, me impossibilitavam os movimentos, condicionavam os pensamentos e me impediam de ser uma adolescente normal.
Na altura achei que era por causa daquela relação falhada. Hoje sei que ela também falhou porque eu já estava a relacionar-me com a depressão.

Sei que deveria ter falado com os meus pais assim que apareceram os primeiros sinais. Não o fiz. Tive vergonha de estar a reagir daquela forma, senti-me mal comigo mesma, disfarcei choros e olheiras na esperança de parecer "normal". Só percebi que precisava de ajuda quando me senti no fundo do poço e já "não aguentava mais".

Sempre fora independente, líder e extrovertida e estava habituada a ser uma segunda mãe para o meu irmão, um exemplo para a minha irmã e o braço direito da minha mãe, pelo que não foi fácil sentir que precisava de colo nem pedir atenção. Não estava familiarizada com estas "fraquezas". Apesar de ser uma miúda meiga, compreensiva e atenciosa para com todos, não me sentia bem ao admitir que, naquela fase, precisava de ser eu o centro das suas atenções.

Não foi fácil ser uma adolescente com depressão. Nada fácil. Em nenhuma fase da vida o foi, mas foi duro demais estar a passar pelas idades em que deveria rir mais, sair mais, dormir mais, conviver mais... e não conseguir. Foi duro não me reconhecer nas ações, nos pensamentos e nas palavras, logo numa fase em que a personalidade estava a ganhar cimento. Foi difícil aprender a lidar com as emoções que, como é bem sabido, nesta fase estão ao rubro e no ponto máximo.
Mas passou... E voltei a ser uma jovem "normal", apesar de ter hoje consciência de que a forma como essa primeira depressão foi vivida marcou fortemente a minha vida.

Hoje já estamos todos mais despertos para as doenças do foro psiquiátrico e psicológico e conseguimos aceitá-las como "normais" e "possíveis", por isso não há desculpa para não estarmos suficientemente atentos aos jovens com quem contactamos ao ponto de perceber quando os primeiros sintomas de depressão começam a aparecer.


4 comentários :

  1. Olá Marisa, obrigado pela partilha. Estou agora com 22 anos e revejo-me em muitas das coisas que partilhaste. Acho que ando a fechar os olhos há muito tempo a algo que já é demasiado evidente para os que me rodeiam. Posso perguntar como conseguiste ultrapassar?

    Beijinhos,
    Mariana

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    1. Olá minha linda.
      Não feches mais os olhos. Eu tenho 38 anos e ainda estou a tentar ultrapassar. Já aprendi muito com este "convívio" de 2 décadas, mas continuo...
      Se quiseres, entra em contacto comigo e falamos um pouco em MP. É sempre bom conhecer alguém que nos compreende!
      Beijocas

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  2. Olá Marisa, obrigada pela tua partilha. Eu também me revejo em muitas coisas que escreveste e partilhaste, eu tinha cerca de 16 anos quando comecei com esse tipo de pensamentos como "eu não devia ter nascido" "era tudo tão melhor se eu não existisse" fechei me muito do mundo, não queria sair, conviver com os amigos, só gostava de ficar no meu quarto fechada no meu próprio mundo. Pensei muitas vezes em suicídio mas tb pensava nos meus pais e isso é que me dava forças para não o fazer, duraram uns aninhos e nunca falei com ninguém sobre isto, nem sabia que isto era depressão.
    Hoje tenho 24 anos e sinto me bem comigo e penso sempre em aproveitar a vida ao máximo e tentar ser feliz.
    Infelizmente a depressão na adolescência existe e temos de tomar especial atenção aos sintomas, pois as vezes pode ser tarde demais.

    Beijinhos

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    1. Olá querida.
      É verdade o que dizes.
      Eu não consegui ultrapassar assim... ainda vivo com a visita da depressão. De vez em quando, sem aviso nem porquê, aparece de novo e estraga o amor que fui cultivando por mim.
      Mas aprenderei!!! Oh se aprenderei!!!
      Beijocas

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