terça-feira, 5 de abril de 2016

HISTÓRIAS DE VIDA: "CONTRAÍ HIV E A MINHA VIDA MUDOU" - PARTE II

Esta é a história de uma Maria, que contraiu HIV e nunca mais conseguiu equilibrar a sua vida.
A primeira parte está aqui: PARTE I


"CONTRAÍ HIV E A MINHA VIDA MUDOU"
PARTE II

Continuação...


"Continuei hospitalizada num quarto do isolamento por não haver camas na enfermaria e, no dia seguinte, o médico veio dizer-me que não poderia sair enquanto tivesse febre e perguntou se eu tinha manchas brancas no corpo, principalmente nos braços, mãos e pés. Disse-lhe que não e o médico, novamente de forma indelicada, me respondeu:

- Estranho! Estes casos de infecção aguda do HIV apresentam todos estes sintomas! Mas não nos preocupemos porque elas vão aparecer...
Voltei a ficar com imensas dúvidas e preocupações, ainda na esperança do diagnóstico estar incorreto, mas as análises diárias mostravam o contrário.
No terceiro dia de internamento, altura em que fui transferida para a enfermaria, já sentia melhorias: conseguia aguentar mais tempo sem febre e, quando isso acontecia, já conseguia comer, pelo que me retiraram o soro. O médico apenas vinha verificar a febre.

Um dia, uma enfermeira sugeriu-me que falasse urgentemente com uma psicóloga, pois achava que eu estava em choque e negação, pelo que me faria bem conversar com aquela especialista. Eu assenti.
Num dos dias seguintes, uma amiga visitou-me e, quando lhe contei o que se passava comigo, ficou estupefacta e perguntou-me se tinha sido o Manuel a transmitir-me o vírus, já que achava que ele não andava com boas companhias. Eu não acreditei que pudesse ter sido ele, até porque, sendo militar como eu, tinha as análises controladas. Mas afinal, parece que estava enganada.
Recebi então uma mensagem dele a perguntar quando voltaríamos a sair e acho que foi ela que me fez cair em mim. Chorei durante horas, sentindo-me culpada pelo que me estava a acontecer e irresponsável por ter permitido aquela situação perigosa. Chorei porque não queria acreditar nem aceitar aquela situação e precisei mesmo da ajuda de uma psicóloga para compreender melhor a doença e aprender como poderia viver com ela. Foi muito atenciosa e explicou-me tudo, o que foi ótimo, mas fiquei com muito medo da terapêutica que me esperava.
Tive alta quando a febre desapareceu, duas semanas depois, mas regressei a casa sem iniciar qualquer medicação nem outra terapêutica e com muita dificuldade em contar à minha família o que se passava, tendo tentado ao máximo disfarçar.
Apenas contei ao meu irmão, a quem sou muito chegada, pedindo-lhe que mantivesse segredo até eu própria me sentir preparada para contar. No entanto, sei que não o conseguiu fazer por muito tempo e que contou logo ao meu pai que, apesar de não me ter dito nada, pediu à minha madrasta que falasse comigo à parte sempre que me vinham visitar a casa dos meus avós. Muitas vezes ela tentou que lhe contasse o que se passava, mas sempre lhe disse que estava tudo bem e que não se passava nada.
Sendo eu militar e tendo já alta do médico, apresentei-me ao serviço no quartel e contei o que se passava ao sargento, o meu chefe direto, que se mostrou disponível para me ajudar mas pediu que não comentasse o assunto com ninguém.

Voltei a ficar doente (com febres, vómitos, enjoos e otites) e o pânico apoderou-se de mim e deixei de conseguir dormir, com medo de não voltar a acordar. Sentia-me incrédula e inconformada, chorando constantemente. Comecei a não ir trabalhar ou a voltar mais cedo muito deprimida, isolando-me com vergonha e medo da reação dos outros. Mas sentia necessidade de desabafar e, aos poucos, fui contando às minhas amigas, procurado nelas o apoio e atenção, mas o que quase sempre recebi foram reprimendas e críticas cujas palavras eram como flechas atingindo-me no coração. Eu sabia que, ao ser irresponsável, tinha dado cabo da vida e já me sentia nas profundezas de um buraco, mas precisava de apoio e não de tantas reprovações. 
Comecei a isolar-me cada vez mais e entrei numa depressão profunda, sentindo um enorme desgosto e um sentimento de culpa devastador. Deixei de comer e de dormir, passando o tempo no sofá ou na cama a chorar compulsivamente. Desisti de trabalhar durante semanas, sendo encoberta pelo meu chefe para não perder o emprego.

Um dia ganhei coragem e regressei. No quartel senti-me mais distraída e acompanhada, o que me deu alguma esperança. Mas um cabo da minha unidade conseguiu destruir as minhas forças com uma conversa inesperada no meu posto de trabalho, dizendo alto e procurando o escândalo:
- Quando é que estavas a pensar contar o que tens? Não achas que devemos saber? E se te aleijas, cais e fazes sangue, não vais infetar-nos? Como pai que sou, peço-te por favor que, quando fores para cama com alguém, uses sempre preservativo e não dês cabo da vida de mais ninguém!
E assim toda a gente ficou a saber e vi nos meus colegas reações foram muito negativas, como nojo, desprezo e pena. Apesar das reprimendas do meu sargento, em poucos dias toda a base ficou a saber e eu passei a ser vista como “a puta que tem SIDA”. 
E um maior estado depressivo se apoderou de mim e me fechou em casa entre medos, angústias e solidão."
 
Continua...  


4 comentários :

  1. oh :( a reacção do cabo foi tão malvada. Eu compreendo que exista o medo, mas nao era razao para a tratar assim!

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  2. Respostas
    1. Ficamos assim, não é linda?
      Estou quase a partilhar a 3.ª parte.
      Beijocas

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