terça-feira, 29 de março de 2016

PRIMAVERA EM MIM

Quando chega a esta altura do ano, o mundo toma outra forma, os dias ganham outra cor, o ar se enche de outra luz.
E é normalmente nesta altura que, vendo outra alegria nas formas, cores e cheiros à minha volta, recupero o que de melhor há em mim e procuro reservas de luz para armazenar e iluminar-me durante o resto do ano.
Logo de manhã, ao acordar, mesmo que algo tristonha, desanimada ou encolhida, gosto de abrir os estores do quarto e ver a luz que ilumina o dia lá fora.
Abro-os aos poucos quando o ânimo permite que me levante. Ou peço que o façam por mim... Depois volto a deitar-me. Abro 1/4 e fico quieta na cama, procurando transformar o sono em sossego para conseguir ouvir todos os sons que vêm de fora. Claro que, à mistura, ouço dois rebentos com mais de uma década que falam, discutem e riem, numa tentativa inconsciente mas falhada de provocar ruído na melodia dos passarinhos, nas vozes do povo que sai para trabalhar ou no som de rodas e motores que, na primavera, até soam a música. Mas até eles, os miúdos, conseguem fazer parte da composição harmónica do despertar (especialmente se partilharem comigo os primeiros raios, enquanto trocamos beijinhos e abraço).
Aos pouco, levanto o resto do estore... 1/2 e já a luz do sol ilumina o meu quarto... 3/4 e já consigo ver a forma dos sons que me preencheram nos primeiros minutos. E observo as crianças que saem para a escola levando um sorriso no rosto, as folhas das árvores que abanam com a aragem matinal, a água que esguicha e rega o verde, um cão que ladra numa varanda a um gato que livremente o observa da rua, as andorinhas que voam de um lado para o outro esperando a oportunidade de entrar nos ninhos que fizeram por cima das minhas janelas. Corajosamente, sem depender do ânimo que tinha ao acordar, levanto o resto do estore e espreguiço-me, como se absorvesse toda a maravilha que está lá fora.
Nos dias em que a temperatura sobe um pouco mais, abro a janela e deixo entrar o mundo colorido, aromático e melodioso... e o dia muda mesmo, a vontade de viver intensifica-se, o espírito dança de outra forma.
Nos dias em que acordo com o ânimo em baixo, fico quietinha no meu canto, enroscada com a minha almofada... custa levantar-me, custa abrir o estore. Fico quieta tentando ouvir tudo na mesma, na esperança de conseguir preencher-me de paz e força para contrariar o que há de negativo em mim. E muitas vezes basta ouvir as mesmas vozes, o mesmo som da água, o chilrear, o ladrar, as gargalhadas... para me levantar a custo e abrir o estore todo de uma só vez.
Sendo a manhã diferente, o resto do dia só pode ser melhor também, por isso a primavera é tão importante para mim... quase parece que faz milagres recuperando o que de melhor há em mim e que, quase inevitavelmente, acaba por me ser raptado pelo outono que já lá vai.
Se o sol brilha mais e o calor vai despertando, as roupas ficam mais leves e as cores sobressaem nelas... os tecidos mais finos são reis, os liláses, rosas, azuis, verdes e amarelos saltam à vista, aparecem flores, riscas e bolas, alguns padrões surgem arrojados, divertidos... o dedo começa a aparecer de fora, ficando as botas e as meias arrumadas por uns meses.
Tem dias em que me apetece prender o cabelo. Em muitos acabo por não sair de casa sem pintar os lábios, sem colocar protetor hidratante após a limpeza facial e não posso, de forma alguma, andar na rua sem óculos de sol.
E as esplanadas, como ficam? Cheias e barulhentas, com miúdos a correr e a pedir os primeiros gelados do ano. E tanto que me apetecem desde logo a mim também!
Os campos se enchem de flores, as cabeças de bonés, os céus de pássaros viajantes. Há caracóis a sair das conchas, crianças a brincar nos parques, gatos deitados nas varandas ou beirais.
Como não ficar de alma cheia e aura colorida com a vida a renascer à nossa volta?
Como não recuperar a alegria e encher o peito de energia, orientar os sentidos e fazer novos projetos?
Há tantos e tantos pormenores a surgir à nossa frente aos quais nos podemos agarrar para reforçar a alegria de viver!
A primavera, quando chega e se aloja em mim, ajuda-me a ser melhor pessoa e mulher.



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