terça-feira, 18 de agosto de 2015

2660 DIAS DEPOIS...

Curiosamente, ou talvez não, não é nos dias em que me sinto pior que tenho a tentação de ir buscar palavras anteriormente escritas e sofridas... E não é por mero masoquismo que o faço em dias melhores, mas porque há ciclos que têm de ser encerrados com categoria e não consigo desistir deles enquanto não lhes dou um último solo no palco da vida, só possível quando a energia da luz é maior do que a escuridão.

Há vários anos atrás, o peito doía muito e, inesperadamente, mudavam os sentimentos com que usava o olhar interior e a intensidade com que os cruzava com outros olhares. Não houve uma culpa, nem houve um problema. Houve uma falha na comunicação e um conjunto de emoções que desequilibraram a mente e a alma, quiçá possível porque existe quem também precise de pisar para se erguer. E doía... e não digo doeu, porque não durou um ou dois dias no pretérito perfeito, mas umas centenas no imperfeito. Agora, já passou... Foi passando.


2660 DIAS DEPOIS...

"Eu tento, mas não consigo. Não consigo tirá-la da minha cabeça, da minha mente. Não consigo deixar de odiá-la, de querer que suma, que se afaste, desapareça. Ela vai, mas volta, volta sempre. E sempre para me atormentar, me desequilibrar, me fazer gritar, espernear, descontrolar.
É aranha pegajosa que se move em meu mundo de incertezas, de dúvidas e inseguranças. Prende-me em sua teia sem piedade. Fê-lo há meses e não me solta. Não me dá paz, liberdade. Também não me devora, mas tortura. Espeta as suas garras docemente, com veneno, adormecendo meus sentidos e deixando doida a minha cabeça. Depois, lívida, cansada, afasta-se por momentos, criando a ilusão de que se cansou de torturar, mas fica vendo, ao longe, meu corpo sofrendo por recuperar, meus poderes de vida surgirem aos poucos, a medo, em desespero...
À espreita, volta a aproximar-se quando a confusão é menor e o sorriso arrisca a espreitar. Aí, sumptuosamente, abraça meu corpo nu, sufoca-o em suas patas de pelos repugnantes, soltando gargalhadas de regozijo e lançando brilho intenso de prazer de seus olhos sempre postos em mim, penetrantes, carnificares...
«És minha para sempre!», parece pensar. E seus sonhos se realizam quando, fraca, inconsciente de dor e pequenez, volto a acanhar-me, a chorar, a implorar que me deixe, me abandone na paz que é não mais sentir o seu odor, as suas amarras.
Eu tento, mas não consigo. Não consigo soltar-me, fugir, porque a teia em que me encontro é o sonho de vida que quis para mim e eu amo-a mais do que ao prazer de sorrir, de fugir.
Eu tento, mas não consigo, mas quero, mas desespero. Estou fraca e ninguém vê ou pressente. Cada abrir de olhos chama todos os reforços de coragem e força, que não voltam mais para as suas guaridas e, aos poucos, em cada batalha, vão desaparecendo, padecendo de falta de incentivo, de motivação. 
Estou desistindo de lutar, de voltar a respirar. Estou dando poderes a essa aranha que, persistente e furiosa, vai ganhando perícia e charme, vai sugando as cores da minha face, que, quase translúcida, deixa ver a palidez de quem só quer sair da teia e ficar assim quieta, tonta, noutro aparente paraíso qualquer.
Eu tento, mas está difícil, não consigo."
Marisa Luna


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