quarta-feira, 17 de junho de 2015

2202 DIAS DEPOIS...

Tenho uma espécie de caderno onde, em dias mais difíceis de solidão, registei os pensamentos que assombravam a minha alma, na sua maioria demasiado profundos para saírem de mim de outra forma e infinitamente duros para puderem ser amolecidos com um abraço ou uma noite bem dormida.

Não são leves, nem agradáveis, mas são reais e sentidos, sem exageros nem capas, pois em momentos de falta de esperança em si próprio, nada é de desvalorizar numa alma escura e a precisar de ajuda.

Sem ninguém precisar de me dizer que assim é, sei que os mesmos assombram muitas outras cabeças que, doentes e, muitas vezes, sem darem conta ou admitirem, precisam de descobrir onde ir buscar a luz e a quem confiar o empurrão de que precisam para perceber que a sua vida é única e que a felicidade depende da capacidade de acreditarmos em nós e nos nossos sonhos.

Neste momento, ainda não estou no ponto em que gostaria de estar, mas estou muito melhor e a maioria destes duros pensamentos já me assombra poucas vezes, ainda que teimem em aparecer esporadicamente (porque acontecimentos memorizam reações), vestidos de cinzento mais ou menos claro, prova de que o branco luminoso até em desespero já consegue suavizar a alma negra.

Estou mais forte, mais confiante em mim e no caminho novo que quero encontrar. Procurei ajuda e fiz opções. Ganhei coragem e segui o meu coração, aceitando quem sou e o que faz sentido para mim, mesmo que não o faça para mais ninguém. Perdi momentos, perdi pessoas... mas estou a encontrar-me. E o peso é já muito menor. E já passaram alguns anos.

E foi assim que escrevi há precisamente...

2202 dias e 13 horas

"Sinto-me fraca. Sinto-me só.
Estou doente.
Não é grave, mas simples de resolver, mas sinto-me impotente e só.
Sei que não sei tomar conta de mim, que me negligencio, que me abandono ao sabor das obrigações, das rotinas e da satisfação dos outros, mas fico injustamente à espera que alguém o faça por mim. Incorreto e desesperante, este desejo não desaparece, mesmo que queira e peça.Está enraizado e ramifica-se em diversas características minhas e é demasiado cansativa a luta para acabar com ele.
Sei como me mimar, muitas vezes a forma de o fazer ou o que me deixaria a senti-lo, mas não consigo pôr em prática um egoísmo que, sob a forma de altruísmo ou meiguice de outros, seria um presente de valor supremo para mim.
Não sou capaz de pensar em mim nesse sentido... não me sinto capaz de o fazer... 
Porque ninguém pensa em mim?
Porque pensam passivamente quando a felicidade depende de pensamentos ativos e persistentes?
Será que não dá para me ensinar como fazê-lo?
Uma criança só aprende a andar ao ver pessoas a andar, se lhe derem a mão ou perceber como é bom deslocar-se de um lado para o outro.
Sinto-me uma criança fechada, sem local onde se agarrar e com tanta gente que não dá a mão (apesar de alguém incentivar e dizer "levanta-te" e "és capaz").
Divago. Como sempre. Já sei... a ajuda tem de vir de dentro. Tenho de ser eu a pensar em mim e pela minha felicidade. Já o sei.
Mas agora estou doente. Deem-me só mais esta desculpa e deixem-me ser ajudada. Tomem conta de mim, mimem-me, deem-me colo... por favor...
Já não sei pedir de outra forma e tanto sofro tantas vezes por não ser capaz de forma alguma...
Já não sei expressar de outro modo. nem o devo fazer por ora.
Preciso sentir que cuidam de mim, que se interessam e preocupam; mas não superficialmente, não de forma passiva... mas com gestos, com assumir de responsabilidades, com palavras e muitos pensamentos e ações concretas.
Hoje nem consigo sentir-me culpada por pedir e aceitar... e essa costuma ser a raíz profunda de todo um ego desaparecido.
Parece que já nem sei explicar... nem escrever."
Marisa

Imagem retirada da Internet

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