terça-feira, 25 de novembro de 2014

ACABAR COM A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

Hoje assinala-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e não poderia deixá-lo passar sem escrever algumas palavras sobre este assunto, que muito me preocupa e sobre o qual penso muitas vezes.

Apesar de estar consciente que em muitos países as mulheres são vítimas de situações gravíssimas de violência, muitas vezes com a aprovação do Estado e da Lei, às vezes com o conhecimento e aplauso da Religião, preocupa-me mais conscientemente os maus tratos que as mulheres portuguesas também sofrem, muitas vezes no seu próprio lar, pela pessoa que amam e quase sob olhar dos que as rodeiam.
São vítimas de violência doméstica e sei que muitas vezes sofrem em silêncio, à espera que o dia seguinte seja diferente, desculpando quem lhes bate para se culparem a si mesmas, disfarçando com maquilhagem as marcas de uma palavra que disseram ou de um gesto que não sabiam ser errado para ele, chorando à noite quando a casa fica escura e todos dormem, desejando acordar do pesadelo...

Felizmente não o sei na primeira pessoa, mas conheço as marcas que esta violência acaba por deixar nos filhos, a forma como os inquieta por dentro, como condiciona a sua relação com os outros, as perguntas que inocentemente são feitas em conversas sobre outros assuntos ou, pior ainda, ficam escondidas num olhar triste e chuvoso, num sorriso pouco rasgado e muito contido.
Não acontecerá com todas as crianças... Outras revelam apenas as marcas quando se tornam, elas próprias, vítimas ou agressores, quando a idade lhes traz relações mais íntimas, responsabilidades de vida, problemas diversos que não surgiram de quem amam, mas que "têm" de ser descarregados em alguém...

Muitas vezes me questiono se aguentaria sequer o primeiro estalo ou o que faria com ele. Nessas vezes fico com medo de não ser tão forte e esperta como julgo ou dessa força e esperteza não ser suficiente quando deixa de ser uma suposição e uma atitude de violência acontece.
Muitas vezes acho que nenhum homem colocaria a mão em mim... que "levaria" logo a seguir... que nem se atreveria. Mas tenho consciência que nem todos são iguais ao meu Hugo e que há quem se descontrole com tanta facilidade que não daria "tempo" nem "espaço" para prever ou responder.
Noutras fico com dúvidas. Muitas dúvidas. E medo. Medo porque não compreendo e isso torna tudo possível.

Sei que a violência doméstica é muito mais que um "fenómeno" físico. Muitos episódios são de violência psicológica ou acompanhados dela. E a alma também dói. Oh se dói!!!
E há muita violência escondida em constantes comentários desagradáveis, em frases que rebaixam, reprimem, reduzem, magoam, desgastam. Há muitas chapadas sem dor física... há coisas que não se dizem se não para tornar inferior alguém de quem se precisa para crescer...
E fico com mais medo ainda, porque estas tareias são mais facilmente confundidas com liberdade de expressão, implicação ou mau feitio. E os sinais não são roxos nem verdes ou azuis... estão num coração apertado ou num nó na garganta... às vezes revelam-se discretamente num arrepio quando uma voz se eleva.

A violência doméstica não tem as mulheres como vítimas exclusivas, mas é delas que hoje falo e é nelas que hoje penso. Porque sou mulher e sou mãe de uma futura mulher...

E fico com tanta vontade de falar com a escritora Filomena Iria sobre este assunto!!
E fico ansiosa por aprender com ela, por ouvir o seu testemunho, por lhe fazer perguntas e tirar dúvidas, por acalmar os medos e abrir mais os olhos, por ler o seu livro "(Re)contos de Violência Doméstica".
Há de chegar o dia!

E enquanto não chega, partilho um vídeo em que fala sobre o assunto, em que nos abre uma porta...

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