quinta-feira, 24 de julho de 2014

MANHÃ ASSIM NUBLADA

Quando era miúda, quando era adolescente, manhãs de verão como esta, de céu nublado, aragem fresca e húmida e sol tristonho escondido sem se espreguiçar, eram sinal de saída a quatro de sacos plásticos na mão.
Mãe e rebentos, muitas vezes ainda meio ensonados, saiam em direção ao mato, na esperança de surpreender muitos caracóis que, aproveitando o calor não aparecer, estivessem na sua azáfama matinal, comendo todas as (poucas) folhas que encontrassem. Não fossem eles animais assumida e mundialmente conhecidos pela sua (não) velocidade, jamais seria possível que as gargalhadas dos irmãos, junto com o pisar dos ramos e as conversas entre todos, não os convencessem a esconderem-se nos seus apartamentos.
Não sei se o objetivo era mesmo ter petisco na tarde de domingo ou se aquele era o momento mais importante do ritual... todos de saco na mão, procurando os maiores da espécie e deixando os caracóis-bebé em liberdade, desviávamos as ervas, espreitávamos debaixo das folhas secas e dos ramos maiores, ficávamos encantados com plantas carregadas quase até vergarem e comparávamos o resultado na nossa caça, para ver quem estava "a ganhar", enquanto todos os assuntos bailavam de boca em boca e o mais pequeno de nós fazia gracinhas ou malandrices engraçadas.
Era feliz também naquelas manhãs nubladas. Não tinha a ideia de que era "seca" não estar sol, ou talvez tivesse mas "ir aos caracóis" atenuava logo esse aborrecimento e trazia motivos para sorrir no acordar cinzento.
Às vezes íamos até longe, explorando os caminhos, passeando na serra ou no vale, descobrindo novos recantos, grutas, vestígios... noutras vezes, a estrada de pedra era suficientemente rica para encher os sacos de bichos e partilhas, sendo o despertar do sol o sinal de regresso a casa.

E estas manhãs nubladas, como a de hoje, fazem-me sempre recordar aqueles momentos felizes, o amor que nos unia (e une), a vontade de estarmos juntos, as caracoladas já a 5...
E têm aquele aroma a terra molhada que jamais deixarei de amar...
E têm aquele silêncio do campo, trespassado pelas nossas conversas e fortalecido pelas pausas delas, em que os passarinhos ganham o palco e um ou outro latido, miado, cacarejo ou mugido surgem como convidados especiais...
E têm aquele fresquinho que parece gelar os ossos, mas que refresca a nossa alma...

Acabo feliz por estar uma manhã assim... e quando já passou o encantamento, também já o sol venceu e aquece o dia...

5 comentários :

  1. Há dias assim... em que a nostalgia nos invade a alma.
    Bjs e boas férias!

    www.trapinhartes.blogspot.com

    ResponderEliminar
  2. Muito bem escrito... Adorei as palavras... E identifiquei-me com elas... Obrigada! ;) Beijinho

    ResponderEliminar
  3. Este tempo só me faz sono, só me apetece estar na cama a ler um bom livro. Muitas vezes ainda vou para o carro ler, porque é preto e atrai o calor e estou quentinha a ler, sabe mesmo bem!
    (Ps: adoro o passatempo dos 1000 seguidores) :D

    ResponderEliminar
  4. Adorei :) E também voltei um pouco à minha infância

    ResponderEliminar