sexta-feira, 11 de abril de 2014

AS "NOTAS" DOS FILHOS: RECOMPENSA DOS PAIS?

Hoje estive todo o dia em formação numa escola de 2.º e 3.º ciclos e, à entrada, assisti a um episódio curioso que me deixou a pensar e me trouxe à memória outro, um pouco contrário, que vivenciei no início de janeiro.

Estavam uma mãe e um filho a ver a pauta das notas (avaliação de 2.º período) e, ao longe, pareceu-me que estava zangada. Após tirar o dedo do vidro da janela onde estavam coladas as tabelas das turmas, dirigiu-se ao filho, que devia ter mais ou menos a idade do meu, e disse-lhe qualquer coisa num tom mais alto (do qual só ouvi "malvado"), começando a correr atrás dele.
Confesso que fiquei um pouco curiosa e, como estava a aproximar-se, fiquei atenta.
Ele ria às gargalhadas, ela voltava a consultar a pauta e chamava uma auxiliar (atuais "assistentes operacionais"), dizendo-lhe:
- Veja lá, vejá lá... as notas do meu malvado!!!
E ele ria... pensei que de nervoso ou de gozo, mas era apenas felicidade.
A mãe voltou a ir atrás dele, abraçou-o muito e beijou-o e, numa frase simples e sincera, revelou-me tudo: o filho não tinha negativas e tinha conseguido um 4 a português, inglês e ciências. Ela estava tão contente!!! Ele estava eufórico. E eu sorri para fora e ri muito de felicidade por dentro pela alegria dos dois, pois notava-se pelas conversas e gestos que tinha sido o resultado de um bom esforço e empenho.

Lembrei-me, então, da reunião de pais do meu filhote, onde recebemos as notas de 1.º período, as quais já conhecíamos da tal pauta.

A diretora de turma, muito simpática, compreensiva e acessível, fez a avaliação global da turma, dizendo que eram alunos muito interessados, inteligentes, participativos, com muitas capacidades... mas (reverso da medalha) também eram muito conversadores e com alguma dificuldade em manter o silêncio, apesar de educados, pelo que os professores queriam a ajuda dos pais para melhorar este aspeto, uma vez que acaba por prejudicar o rendimento global e o decorrer das aulas.
Eu enfiei a carapuça... ou não tivesse sido esse sempre o (único) problema do meu filhote já no 1ºciclo. Pensei logo no que teria de conversar com ele... depois centrei-me no registo de avaliação e tentei perceber o que se tinha passado para um aluno de excelência a matemática como ele sempre foi ter descido para um 3 e estar com aversão à disciplina, quis perguntar à professora como ele era nas aulas para ver se me estava a "esconder" qualquer coisa e pensei em ficar para o fim (se bem que o + junto ao 3 me deu logo umas dicas), mas nem sabia eu da conversa que ia surgir dos outros pais...
Um pai e uma mãe de um colega do meu Simão iam completamente artilhados de documentação para tentar entender a nota do filho. No início não achei muito estranho, afinal também queria perceber "aquela" nota do meu, mas depois percebi como sou branda nestas questões. Os ditos estavam preocupados com um 4 que deveria ter sido um 5 (no 1ºperíodo), pois "eles" estudavam muito com o filho, "eles" iam buscar fichas à internet e "obrigavam" o filho a fazer, "eles" acompanhavam o filho diariamente através do caderno diário, "eles" sabiam que o filho merecia o 5. E continuavam: segundo os critérios de avaliação, a professora deveria ter dado X% (não me perguntem qual!!) às fichas, X%  às competências, X% a mais não sei o quê e "eles" fizeram a conta e não batia certo.
A professora (diretora de turma e não a lecionar a referida disciplina), dizia que não sabia explicar, mas que a professora tinha respeitado os critérios... Mas isso não bastou.
- "A professora, como diretora de turma, verificou se os critérios foram bem aplicados? É que "nós" não achamos bem esta nota (o tal 4) e queremos que a professora seja confrontada."
E lá estivemos a verificar os critérios de avaliação (que, segundo os tais pais, a professora, com medo, tinha retirado da internet) e os pais não se conformaram...
E acho que, no fim, o filho ficou em sarilhos... e a professora também!

Resumindo, eu pergunto:
- as notas são dos/para os filhos ou dos/para os pais?
- os professores têm de avaliar os alunos apenas com números, numa percentagem tão bem feita que, no final dos períodos, possam ter de defender-se como em tribunal?
- porque estão os pais a exigir tanto dos filhos, levando-os a entrar numa competição que acaba por parecer mais deles próprios?
- quando é que as "notas" passaram a ser mais importantes do que o "interesse", o "gosto", a "motivação", a "evolução", a "valorização" ou o "prémio"?

Eu sou professora e já aqui referi o que penso da avaliação, os meus filhos são crianças inteligentes e com muitas capacidades, mas nas quais reconheço as falhas, acompanho a escola dos dois de forma diferente (porque são diferentes também) mas igualmente diariamente, entrei na escola aos 6 anos e há 30 que de lá não saio e porque é que tudo isto me espanta?
Sim, o meu também passou de "mais de 90%" a tudo para uma diversidade maior de notas (e aquela "aversão" à matemática)... e claro que quero o melhor para os meus filhos... e claro que tenho sonhos... e sou exigente porque sei o que sabem e dou importância aos TPC's, aos estudos e aos trabalhos de grupo/individuais, tal como ao comportamento... e fico feliz quando têm boas notas... mas o que mais me ocupa é que sejam FELIZES e a escola é só uma parte das suas vidas... e não a mais importante... também fico feliz quando fazem amigos novos ou conseguiram lidar com uma zanga ou uma desilusão... mas é a vida "deles" e não "a minha".
Há claramente uma diferença entre os nossos sonhos e projetos e os dos nossos filhos, porque eles são outras pessoas que não nós... podemos ter expetativas, desejos, incentivá-los, apoiar... mas não os podemos encarregar de concertizar os "nossos" sonhos...

Hoje fiquei francamente feliz por haver quem fique tão contente assim com um 4 nos dias de hoje... quem festeje, quem grite e exiba a pauta mesmo que o resto sejam 3...
Não sei a história daquela criança, nem tão pouco a do tal colega do meu filho, mas sei que há muitos e muitos pais que encaram a escola de forma errada e, seja por excesso, seja por defeito, acabam por ser adversários dos professores em vez de parceiros.

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