terça-feira, 25 de março de 2014

UM ANEL DE VOLTA AO DEDO

Há muito tempo que não o usava no dedo, apesar de ser das peças de que mais adoro.
Há mais tempo ainda que não pensava no porquê de gostar tanto dele.
Mas a verdade é que adoro e que gostei de o ter no dedo hoje... tanto que talvez não o volte a tirar por muito tempo.
Estou a referir-me ao meu anel de curso.
É lindo, mas não é (só) pela sua beleza, nem pelo valor material que lhe possa ser dado, que gosto dele... mas pelo que representa, pela fase da vida que me faz recordar, pela profissão que escolhi e que, apesar dos pesares, não trocaria por outra.

Escolhi ser professora num ano difícil da minha vida.
Tinha 18 anos, estava doente, terminava o secundário com um ano de notas mais baixas do que de costume, estava muito baralhada em relação ao que era e queria ser no futuro...
Sempre fui de muitos gostos, de um leque diversificado de interesses, de facilidade nas várias disciplinas...
E naquele ano ingrato, não porque era 1996, mas porque demasiadas condicionantes mexiam com o meu íntimo de jovem, tinha de escolher um caminho, de entre tantos que me estavam abertos...
Ainda me inscrevi noutra faculdade, mas a minha mãe fez-me recordar as horas que passei a fazer da porta um quadro onde escrevia com pedacinhos de giz que trazia da escola, a ajudar o meu irmão nos TPC com a maior das paciências, a ensinar as bonecas e a explicar à minha irmã conteúdos um ano mais à frente, a ajudar com as crianças quando a minha mãe tinha um infantário... e não foi preciso pensar muito para perceber que sempre quisera ensinar. E vi o futuro à minha frente... eu rodeada de "miúdos", dando-lhe o que tenho e o que sou. E soube exatamente em que curso queria entrar.

Parece que estou a ouvir a "senhora" que recebeu a minha candidatura à universidade a comentar quando olhou para os meus impressos e viu a primeira opção:
"- Com estas notas e vai para professora?"
Logo aí devia ter percebido como estava (já) despromovida a minha futura profissão... E que despromoção temos sofrido!! (E com muito pesar digo que, infelizmente, muitos de nós contribuem para esta imagem menos positiva!)

Sou professora com orgulho e este anel que hoje trago no dedo serve para me recordar do gosto e do empenho com que me dediquei ao curso (e, desde aí, ao que faço), mas também para recordar o esforço que os meus pais fizeram para que hoje "fosse alguém", tanto quanto o apoio que me sempre me deram em todos os 16 anos de estudos... serve para recordar o orgulho que vi nos seus olhos quando me formei, para abençoar as lágrimas que vi rolar na face da minha mãe quando, enormemente orgulhosa, mo ofereceu e me viu com ele no dedo! Ela que foi sempre a minha guia, orientadora e apoiante, que sempre viu o que eu ia gostar de fazer, mesmo quando nem eu própria via...

Pode até ser que esteja fora de moda, que lhe tenham deixado de dar valor após vários anos em que tê-lo no dedo servia para abrir muitas portas (passou-se do 80 para o 8...), mas eu gosto do meu anel e do que ele representa... gosto e tenho orgulho nos símbolos que nele estão desenhados.

E recordo com saudade uma parte do hino da ESE de Setúbal que sempre me levou à emoção:
"Porque é na ESE de Setúbal
Onde o sonho maior é fazer gente feliz...
Vale a pena estar aqui!"

1 comentário :

  1. Ainda hoje continuou a achar que escolheste a profissão mais linda que há! Mais que ontem e menos que amanhã continuou a ter orgulho na aluna que foste, e na professora que te tornaste !!!

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