quinta-feira, 27 de março de 2014

"FLASHBACK"

Ontem terminei a leitura da obra "Flashback", escrita por Artur Agostinho, onde este conceituado jornalista português nos fala sobre os meses em que esteve preso em Caxias após a Revolução do 25 de Abril de 1974.
Confesso que fiquei presa ao relato e que "não descansei" enquanto não terminei de o ler, pois gosto imenso de histórias verídicas e sou muito curiosa face ao que aconteceu no dia da revolução, bem como ao antes e depois da mesma.
Apesar de não ser ainda nascida nessa altura, acho que até conheço bem o que aconteceu no próprio dia... Em casa dos meus avós e dos meus pais sempre houve livros sobre a revolução, recortes de jornais, histórias reais contadas ao serão... Lembro-me de muitas vezes ter partido à procura de mais informações sobre o assunto e conheço vários documentos, apropriados para diversas idades, desde os mais pequenos.

No entanto, não conheço da mesma forma o pré e o pós, mas sei que há versões distintas, que houve sentires diferentes conforme a pessoa, o local onde vivia na época, o estrato social, as ideologias políticas... Sei também que houve muitos abusos de poder antes, principalmente, mas também depois, tal não era a vontade de ser livre e de querer justiça... Sei que em busca da democracia ou em nome dela, muitas atitudes erradas (ou exageradas???) também foram tomadas, tal não era o desejo de igualdade e de expressão...

Este livro reune dois num só, daí o nome da obra, publicada pelo jornalista pouco tempo antes da sua morte e 37 anos depois de ter sido preso em Caxias.
Na primeira parte, surge a história contada pelo próprio em 1976, quando se encontrava no Brasil a tentar recomeçar a vida, com base nas memórias daqueles meses de prisão. São relatos claros desse tempo, episódios diversos.
Na segunda parte, aparecem os testemunhos de Artur Agostinho escritos na prisão, carregados de sentimentos, emoções e vivências, os quais estiveram "desaparecidos" durante anos, desde que foram "confiscados" numa rusga à cela em que se encontrava prisioneiro.
São duas partes diferentes, que se completam e que nos ajudam a visualizar os acontecimentos, acreditemos ou não na inocência deste homem.

Neste livro pude conhecer um dos lados do pós revolução, aquele no qual houve pessoas a se aproveitar da liberdade e da democracia para, em nome dos dois chavões, tentar consertar o que não tinha conserto e castigar alguém, mesmo sem se saber que culpa tivera.

Gostei bastante do que li, da forma como está escrito, da objetividade com que, apesar dos pesares, conseguiu falar de alguns assuntos. Gostei que os relatos não tivessem mudado a opinião que já tinha do grande profissional que foi Artur Agostinho, que o homem por detrás da profissão não tenha causado em mim sentimentos controversos capazes de confundir o que já conhecia dele (apesar de não ser muito) com o que fiquei a saber. Gostei de ter lido outra opinião, outras vivências... Gostei da atualidade do assunto, apesar dos quase 40 anos decorridos, ou não estivessemos todos nós, de momento, sedentos de nova democracia e liberdade...
Pelo menos eu estou... e sabe-me bem escrever o que me apetece, sem censura, apesar de já ter sido vítima, por aqui, de lápis azuis e vermelhos apontando o que "não devia escrever", o não politicamente correto.
Aconselho a leitura, principalmente a quem não for muito fundamentalista!

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