domingo, 19 de janeiro de 2014

ANIVERSÁRIOS...

O dia 19 de janeiro é um dia marcante para mim... é um dia que representa dois marcos na vida das minhas duas avós... nunca o esquecerei, por mais anos que viva sem elas. Talvez um dia represente também o nosso reencontro do outro lado da vida, onde sonho que tudo é paz e alegria, onde voltaremos a abraçar aqueles que nos são queridos e que viajaram sem regresso antes de nós.

Faz hoje 22 anos que perdi a minha avó materna, a avó Delmira, com apenas 61 anos.
Na altura não me parecia tão nova assim, mas era. Nova demais para morrer, nova demais para sofrer o que sofreu, nova demais para se despedir da vida que tanto adorava, numa altura em que deveria estar a gozar do descanso e dos mimos de todos à sua volta...
Ela era uma mulher de garra, prática e meiga, que adorava ajudar e que lutava pela justiça na vida dos que estavam à sua volta. Era um pilar, apesar dela própria se agarrar a todos, em especial à filha dos seus olhos, tão desejada durante anos. Gostava de passear, de ir ao café, de conversar... não se importava de sair de casa sem deixar a cozinha arrumada, pois queria era aproveitar...
A minha avó adorava rebuçados de mel e jogava às cartas connosco. Fazia croché, tinha muitos botões e gostava de me fazer enxoval. Era vaidosa e gostava de andar bem arranjada, era querida para toda a gente, gostava de dançar e cantava o fado como ninguém.
No final da sua vida, gravámos a sua voz para nunca nos esquecermos dela. Mas a dor de uma voz sem rosto e sem um peito para abraçar e uma pele macia para beijar, dói demais...
A minha avó era defensora dos fracos e oprimidos. Foi guerreira de bairro após o 25 de abril, ajudou muita gente e dava sempre a voz por aqueles que achava que precisavam de uma palavra.
Partiu cedo demais e já dei por mim, muitas vezes, a imaginar como ela seria e reagiria se estivesse viva... se assistisse à minha queima das fitas (chorando e dizendo a toda a gente que aquela era a sua primeira neta), se conhecesse o meu marido e cunhados (ia adorá-los e mimá-los exageradamente), se assistisse ao nascimentos dos bisnetos (mais uma avó com açúcar que iam adorar)... se fosse passear de carro com qualquer um de nós (e o que adorava andar de carro!)...

Neste mesmo dia, neste 19 de janeiro, a minha avó paterna fazia anos. Hoje seria o seu 81.º aniversário... e seria dia de nos juntarmos e de a vermos vaidosa e radiante... Faria 81 anos e já partiu há 11. Também cedo demais, também quando podia estar a viver uma vida mais tranquila após anos e anos de trabalho duro para criar, sozinha, 3 filhos...
A minha avó Zelinda era também uma guerreira. As batalhas eram outras, mas a garra e coragem destemidas com que arregaçava as mangas e tudo resolvia num instante sempre foram um exemplo para mim. Era também muito dada ao que de melhor a vida tem: ao divertimento. Gostava de dançar e corria todos os bailaricos com as suas amigas. Gostava de ter sempre o cabelo arranjado e os lábios pintados. Levanta-se antes de toda a gente, ia à praça e voltava carregada (parecia que) em minutos. Chegava e colocava logo o almoço em andamento, acompanhando com uns fadinhos ou com música do rádio. Fazia roupa de malha numa máquina profissional e ajeitava-se bem nas costuras.
Nas férias, ia alguns dias para casa dela, em Setúbal, onde brincava com os meus primos durante dias, parando apenas para as refeições. Na adolescência, era lá que dormia quando ia sair à noite... ela ficava à nossa espera, mas confiava que tudo correria bem e assim podíamos esticar um bocadinho mais o horário de chegada.
Era uma avó pouco dada a beijos e abraços, sofrendo calada por não ter mais esse hábito e não receber tantas visitas como, no fundo, desejava, mas mostrava-se durona e independente, achando-se capaz de tudo sozinha e fazendo gosto em provar que os filhos poderiam estar descansados... era também um pilar.


Hoje queria poder abraçar as duas... queria poder dizer-lhes que as amo... devia tê-lo feito quando eram vivas e deixei fugir essa oportunidade... talvez daqui a muitos anos nos encontremos as três e o possamos dizer, partilhando o amor que temos umas pelas outras.
Hoje queria ver os seus sorrisos de alegria, as lágrimas de orgulho nos netos, a maravilha das características de cada uma, que as tornaram eternamente únicas e muito importantes para mim.
E hoje vejo algumas das heranças que me deixaram... quase que sou uma mistura das duas, adaptada aos tempos modernos.
Tenho saudades!! Mas apesar delas e da tristeza do dia, não sinto vontade de chorar, mas um aperto confortante no peito. Sei que estão bem e que tudo o que aqui escrevi, tendo vindo direto do coração, chegou até elas e as colocou a festejar. Até sempre, avós!!!

3 comentários :

  1. Simplesmente lindo!!! Hoje é um dia triste para mim, todos estes dia 19 de Janeiro! Só um dia vais compreender porquê!!! Amo-te!

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  2. Ninguém parte verdadeiramente enquanto habita no nosso coração...avós lindas ambas que habitam o teu!!!
    Beijinhos
    Maria

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  3. Que sorte poderes escrever coisas tão bonitas das tuas avós.
    Tenho pena de nunca ter experienciado uma relação dessas. Com uma nunca convivi e com outra andei às turras toda a vida e não senti nada quando ela partiu.

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