sábado, 17 de agosto de 2013

"OU QUIXOTE" NA QUINTA DA REGALEIRA

Ontem deitei-me muito bem-disposta. Na memória tinha momentos muito agradáveis passados durante mais de 2 horas na companhia do meu amor, dos meus irmãos e cunhados.

Graças à "TMN Entrada Livre", fomos os 6 até Sintra, à magnífica Quinta da Regaleira, assistir à peça "OU QUIXOTE", uma co-produção teatral da MUSGO Produção Cultural e da Animateatro.

Confesso que não estava minimamente preparada para esta peça.
Conhecedora mediana da história do cavaleiro andante D. Quixote e do seu fiel companheiro Sancho Pança, tenho de referir que fui altamente surpreendida por esta peça.
Não posso dizer que não gostei. Estaria a mentir. Diverti-me imenso (apesar de achar que não era "suposto") e penso que estive perante uma criação verdadeiramente única e surpreendente.
Conhecedora e apreciadora de teatro contemporâneo, consegui admirar genuinamente as capacidades expressivas dos atores, todos com grande poder cénico e excelente domínio do corpo e da voz, a criatividade na exploração do tema e o poder de surpreender e agarra o público.

No entanto, nem sempre entendi o que estava a ver e fui surpreendida por uma primeira parte de nudismo e erotismo quase descabido que, penso eu, pretendia mostrar de forma surreal os sonhos e devaneios de Quixote. Apanhada desprevenida por cenas desconcertantes que faziam lembrar orgias medievais e comportamentos provocatórios, muitos enfatizados pelo famoso "Bolero de Ravel", achei tão alucinante que mal consegui controlar as gargalhadas e daí em diante não mais conseguiu não ficar suscetível ao riso e à surpresa.

Por momentos senti-me desenquadrada num cenário envolvido por caras bem diferentes da minha, de rostos sisudos e atentos, de bocas abertas de admiração perante a criação, de um público que gritava bravo para dentro de si... Só eu, os meus por contágio, e algumas outras mentes, entre as quais um inocente pré-adolescente, pareciam reagir da mesma escandalizada (ou escandalizante?) forma... ou será que muitos estavam tão risonhos como eu, mas apenas envergonhados por achar que o riso poderia dar ideia de ignorância perante a obra? Talvez a minha alma tenha um quê de infantil ou, quiçá, muito de autenticidade e de despreconceito sobre deixar transparecer o que se sente...

Após muitos devaneios, com rabos e outras partes à mostra, livros a voar e uns movimentos estranhos ao estilo da loucura, assistimos a uma segunda parte que, quanto a mim, mais se aproximou da história do cavaleiro, enlaçando-a com sentimentos da guerra do ultramar, brincando com o que as personagens faziam, em atitudes mais ou menos comuns e/ou burlescas, com piadas e provérbios sabiamente adaptados à atualidade, com monólogos difíceis e cervantescos (ou talvez não!), com movimentos cénicos sabiamente estudados e uma cenografia de grande poder contemporâneo e imaginativo, onde vários objetos do quotidiano de hoje ganhavam vida de acessórios do século XVII, numa arena intelectualmente estudada para fazer de campo de batalha, de cidade ou de horizonte.

Estive horas a pensar no que poderia escrever sobre o que vi, ouvi e senti, porque não sei bem o que mais me marcou, se o divertimento com que passei duas horas ao frio (que quase nem senti, ou não estivesse a minha alma quente das gargalhadas), se a complexidade de um espetáculo difícil de compreender.
Acho que nunca mais me vou esquecer e que, nem sei bem porquê, nos aproximou aos seis um pouco mais ao levar as nossas almas a baterem palmas num novo plano que havemos de descobrir.

1 comentário :

  1. Cenas Castanhas dependuradas, é algo que dificilmente vou esquecer, aliás, o meu sub-consciente em forma de pesadelo, diariamente não me deixa esquecer!

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