domingo, 26 de maio de 2013

PAPÁ EM CONCERTO

Ontem terminei o dia com o coração tão cheio que mal cabia no peito!

Fui assistir ao espetáculo que a banda acústica do meu pai ("A Preto e Branco") deu em homenagem à música portuguesa no Auditório Municipal do Pinhal Novo.
Ver o meu pai em palco, aplaudi-lo e apoiá-lo é sempre ótimo, mas desta vez teve um gostinho especial, pois sei como ele sonhava com um espetáculo assim: num espaço fechado e com boa acústica, com temas nos quais acredita desde sempre e com bons amigos (músicos) a acompanhar.

O espetáculo foi muito bom. A sala estava praticamente cheia, o ambiente era de tranquilidade e amizade, o concerto estava bem preparado (o visual do palco, a roupa dos músicos, a posição de cada um, a sequência de temas, as imagens projetadas por trás, as luzes, o som, a entrada dos amigos, o diálogo do vocalista Mané com o público...).
Nos primeiros temas notava-se algum nervosismo próprio de quem vê concretizado um sonho. Ao quarto tema, já a paixão pela música transbordava das cordas, dos ferrinhos e das vozes... mais tarde dos instrumentos de sopro.




Durante todo o tempo ouvi as cordas da viola-baixo do meu pai a acompanhar as músicas.
Sei que é um instrumento que passa despercebido a muita gente. A mim não! Habituei-me a ouvir e reconhecer o seu som com os ensaios caseiros que o meu pai sempre fez ou com a sua presença em palco. Reconheço que em muitos temas fica "disfarçada" com o duo que faz com a bateria a acompanhar as melodias. Quando o meu pai está a tocar, isso não acontece. Reconheço sempre as suas notas, ouço sempre as suas cordas.

O meu pai toca há tantos anos que não deve ter grandes recordações do tempo em que não tocava...
Nunca foi profissional (entenda-se como viver disso), apesar de ter carteira de músico.
Sempre foi muito bom, apesar da sua humildade e de quase "ter vergonha" do que sabe e consegue fazer com as suas amigas violas.
Esteve uns anos parado... achava-se velho e que já não tinha vida para o palco...
Foi recrutado por uns amigos e ganhou coragem para voltar!

Ontem pensei em como poderia ter tido outro rumo de vida se tivesse lutado por este seu sonho (e dom!). Foi ele que trouxe a família de Setúbal para Palmela, nos anos aureos do "Adágio", numa década da minha vida recheada de bons momentos e memórias, em que o Carnaval, a Passagem de Ano, os Santos Populares e tantas outras festas tinham um sabor especial para nós e marcaram pela positiva a forma como encaro estas épocas. Fui muito feliz dançando e olhando, ao mesmo tempo, o meu pai no palco.

Arrisco-me até a dizer que foi o sonho da música que juntou o meu pai e a minha mãe. Ele, miúdo franzino, tímido e recatado, tocava viola... Ela, miúda com corpo de mulher, vivaça e alegre, chegou a aprender com ele... o seu mano, baterista como poucos em Portugal, acompanhava os dois...
Nunca foi confissão que me chegasse, mas acho que a viola acabou por ajudar a dar brilho ao meu pai aos olhos da minha mãe (isso e uma paixão enorme que ele lhe tinha!) e a juntar os dois num amor poderoso que dura há 40 anos.

Ontem lembrei-me de estarmos um dia em casa, era eu miúda para uns 10 anos, e de recebermos a visita de um grupo conceituado da música portuguesa da época... vinham "buscar" o meu pai para tocar com eles. "O meu pai vai ser famoso!", lembro-me de pensar enquanto dava risinhos com os meus irmãos no quarto e aguardava o resultado da conversa. Queriam que ele fosse com eles, que visse a sua sala de ensaio, para decidir... Fascinou-se, mas não quis largar o emprego fixo que tinha já há anos na (então) conceituada "Portugal Telecom" (ou seria ainda CTT?). Aceitar a proposta seria assumir concertos e digressões, não podendo continuar no trabalho das 8h às 17h (que ele ultrapassava sempre...), num local de ordenado fixo, do qual a família vivia (já éramos 5 na altura).
Não foi... mas ontem lembrei-me que a sua vida poderia estar diferente se a sua resposta tivesse sido outra. Não sei se melhor ou pior, mas de certeza diferente.

Mas porque os sonhos só devem morrer connosco, ontem teve direito a viver um deles. E eu ainda estou de peito cheio de orgulho e felicidade pelo que vi, ouvi e senti... mas também pelo que sei que vai no peito dele e isso deixa-me enorme...
Amo o meu pai do fundo do coração e tenho com ele uma relação que, apesar de discreta e muito "nossa", não se compara a nenhuma outra... não é perfeita, não foi sempre assim, mas é verdadeira e atualmente vive de todas as coisas que foram o nosso passado e que serão o nosso futuro.

4 comentários :

  1. Espetacular, princesa as palavras que sai do teu coração para o pai! Sim tens razão, foi a musica que nos juntou! Tal como tu, sempre achei que o pai nunca deveria ter parado, sou uma das principais " culpadas" de voltar a tocar, ao fim de 15 anos! Para mim, ele é o melhor, estou lá sempre, quando precisa! Amo-te

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  2. AO LER ESTE TEU POST, FIQUEI SEM PALAVRAS PARA COMENTAR. QUE APENAS DIZER-TE QUE TE AMO MUITO, DAQUI ATÉ Á LUA,ONTEM HOJE E PARA SEMPRE.

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  3. Muito bem, até eu fiquei contente, pelo teu pai! E por ti claro.
    Beijinhos

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  4. Pai há só um, o nosso e mais nenhum!

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