quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

UMA VELHINHA E SUAS CONCHAS

Era uma senhora muito velhota... não sei se a idade lhe estava apenas marcada no rosto ou se em algum documento, mas dava-lhe uns 80 anos... Rosto muito enrugado, pele (aposto que) macia, olhar meio encovado e muitas marcas da vida numa voz já pouco clara e numa audição muito ténue...
Estava vestida de preto, talvez ainda de luto por um companheiro de vida que partiu antes dela... talvez por um filho ou um irmão que levou consigo a alegria de viver e lhe deixou a vida pintada de escuro... Não lhe perguntei.
Os funcionários do restaurante tratavam-na com carinho, alguns como que a uma avó, e deixaram-na montar a sua banca numa das mesas pequenas do restaurante. Pareceu-me que seria habitual, tal não era a cumplicidade entre as peças que iam sendo colocadas na mesa e os olhares dos muitos homens que circulavam a servir os clientes.
No início não vi bem o que vendia, mas fiquei curiosa. Percebi que eram conchas, talvez apanhadas por si nas praias da Arrábida, explicando o tom escuro da pele ao longo dos anos bronzeada pela comunhão do rio com o mar... Reconheço nela o tom do meu avô e sinto as saudades a apertar no peito... Da minha avó também, quando a vejo levantar-se, pequenininha, e aplaudir o meu marido, sem o conhecer, porque percebeu que fazia anos...
No fim, fui espreitar a sua arte e fiquei encantada. Muitas e muitas conchinhas habilmente trabalhadas pelas suas mãos grossas e enrugadas, pintadas, coladas, transformadas em anéis, pulseiras, colares, peças decorativas... muito baratas para artesanato e para uma vista que já pouco alcançará por certo. Queria comprar uma de cada... já não apanhei colares... comprei dois anéis bonitos que não sei se alguém irá usar mas que têm valor de pedras preciosas do mar...



E a velhice que não significa inutilidade nem paragem, mas muitas vezes é sinónimo de solidão. E uma vontade enorme de garantir aos meus (futuros) velhotes, pais e sogros que avós já não os temos, que passarão os últimos tempos acompanhados e que as suas artes deverão sempre ser valorizadas.

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