sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PERDER...

Não posso dizer que gosto de perder, mas já fui bem pior neste sentido.
Antes não gostava de perder nem a feijões e ficava furiosa. Até recusava entrar em jogos ou atividades em que sabia, à partida, que iria ficar em último! Revoltava-me, ficava rabujenta, não tinha fairplay... Em criança isto estava vincado em mim, mas com os anos fui aprendendo e mudando. Acho que foi dos defeitos que melhor consegui dominar, se é que isso é possível. Não sou uma adulta assim e, hoje em dia, gosto (e muito) de ver os outros vencer (na vida, nos jogos...), apesar de continuar a gostar da sensação de ganhar. (Haverá quem perca por gosto?)

Em adulta lido bem com algumas perdas... não desejo ser a melhor. Apesar de não ficar contente, não desespero se perco algum objeto, se perco um episódio de uma série, se perco oportunidades, se perco cabelo (ou elegância!), se perco tempo...
Em algumas circunstância consigo perder o orgulho, perder a paciência, perder a humildade... sem me sentir culpada ou inferior. (Em algumas, conforme os casos!) Consigo perder qualidades que já tinha adquirido, talvez porque acho que há sempre uma possibilidade de as recuperar, consigo perder a compostura ou a autoconfiança, a primeira com mais dificuldade e em momentos de felicidade, a última (infelizmente) ao contrário...

Mas há algo que nunca vou saber perder: as pessoas que amo.
Não consigo desistir da relação com as pessoas de quem gosto muito, não aguento perder a proximidade dos membros da minha família ou dos amigos próximos, não quero sequer imaginar perder as pessoas que amo.
E imaginar o que sente uma mãe que perde um filho é algo que me está absoluta e conscientemente negado. Não deve haver dor maior, não deve haver maior perda do que esta... só tentar imaginá-la já dói e foi dessa forma brutal que terminei a leitura do livro "Mulher em branco", de Rodrigo Guedes de Carvalho.
De leitura difícil, que exigiu grande concentração da minha parte, conta não uma mas várias histórias de dor, tendo como pano de fundo a dor de uma mãe que, ao saber do desaparecimento do seu filho, entra num estado de amnésia, apagando-se todas as suas memórias...
No decorrer dos capítulos, acompanhando este estado "em branco" de Laura, ficamos a conhecer outras histórias de dor das pessoas que estão à sua volta (violência, traições, acidentes...). Ganhamos simpatia por umas e rancor por outras.
Mas nos últimos, quando o branco desaparece, entra a dor da mãe que não sabe onde está o seu filho, que descobre que o perdeu, que não tem pistas de onde procurá-lo, que não sabe o que lhe aconteceu, que não tem outra razão de viver e não consegue mudar o rumo dos seus dias, preferindo voltar a adormecer para a vida. Nos dois últimos capítulos, as minhas emoções foram postas à prova num discurso que arrepia e que, não fosse a complexidade da forma como é escrito, me teria levado a um lago de lágrimas... De peito contraído, de impulsos como que retorcidos ou amolgados, sem fôlego para parar de ler ou para reagir, acompanhei as últimas páginas com a ideia fixa de que a minha vida acabaria se perdesse um filho e que não deve, mesmo, haver maior dor no mundo.

Hoje partirei para nova aventura, novo caminho. Talvez mais leve... parece que mereço.
Um dia, voltarei a experimentar a ler este escritor, com a esperança (boa e má) que me volte a incomodar assim.

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