sábado, 11 de agosto de 2012

PALAVRAS PASSADAS

Hoje, sem razão alguma e por uma razão muito especial, senti necessidade de "publicar" um texto que escrevi, muito sentido há uns anos atrás.
Há quem, como eu, acredite que pôr pensamentos no papel ajuda a fazê-los desaparecer do coração... há quem acredite no contrário...
De uma forma ou de outra, é isto que me apetece publicar desde manhã.
Não o fiz, porque achei a pulseira rosa mais importante (e também porque não tive coragem), mas agora sinto que tenho de o fazer... porque agora tudo é mais fácil do que ontem...

A ARANHA

"Eu tento, mas não consigo. Não consigo tirá-la da minha cabeça, da minha mente. Não consigo deixar de odiá-la, de querer que suma, que se afaste, desapareça. Ela vai, mas volta, volta sempre. E sempre para me atormentar, me desequilibrar, me fazer gritar, espernear, descontrolar.
É aranha pegajosa que se move em meu mundo de incertezas, de dúvidas e inseguranças. Prende-me em sua teia sem piedade. Fê-lo há meses e não me solta. Não me dá paz, liberdade.
Também não me devora, mas tortura. Espeta suas garras docemente, com veneno, adormecendo meus sentidos e deixando doida a minha cabeça.
Depois, lívida, cansada, afasta-se por momentos, criando a ilusão de que se cansou de torturar, mas fica vendo, ao longe, meu corpo sofrendo por recuperar, meus poderes de vida surgirem aos poucos, a medo, em desespero...
À espreita, volta a aproximar-se quando a confusão é menor e o sorriso em lábios arriscou a espreitar. Aí, suptuosamente, abraça meu corpo nú, sufoca-o em suas patas de pelos repugnantes, soltando gargalhadas de regozijo e lançando brilho intenso de prazer de seus olhos sempre postos em mim, penetrantes, carnificentes...
"És minha para sempre", parece pensar. E seus sonhos se realizam quando, fraca, inconsciente de dor e pequenez, volto a acanhar-me, a chorar, a implorar que me deixe, me abandone na paz que é não mais sentir o seu odor, as suas amarras.
Eu tento, mas não consigo. Não consigo soltar-me, fugir, porque a teia em que me encontro é o sonho de vida que quis para mim e eu amo-a mais que ao prazer de sorrir, de viver.
Eu tento, mas não consigo... eu quero, mas desespero...
Estou cansada. Ninguém vê ou pressente.
Cada abrir de olhos chama todos os reforços de coragem e força, que não voltam mais para suas guaritas e, aos poucos, em cada batalha, vão desaparecendo, padecendo de falta de incentivo, de motivação.
Estou desistindo de lutar, de voltar a respirar. Estou dando poderes a essa aranha que, persistente e furiosa, vai ganhando perícia e charme, vai sugando as cores da minha face que, quase translúcida, deixa ver a palidez de quem só quer sair da teia e ficar assim quieta, tonta, noutro aparente paraíso qualquer.
Eu tento, mas está difícil. Não consigo."
Marisa Luna
06/05/2008

1 comentário :

  1. Bem fiquei a pensar neste seu tormento... espero sinceramente que já se tenha conseguido libertar de quem não pode amar se trata os outros assim... espero que agora tudo seja diferente para muito melhor. Fiquei com vontade de ir aí arranca-la dessa teia... bjs

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