quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ENXAQUECAS, DEPRESSÃO E OUTRAS QUE TAIS

Há já algum tempo que estava para escrever um post sobre as minhas "doenças crónicas", não sei porquê, mas sentia essa necessidade. Hoje, que acordei com uma enxaqueca (das suaves, felizmente), achei que era o dia... pensei que poderia haver quem achasse que era eu a ter "pena" de mim mesma, ou a queixar-me, mas depois esta imagem, partilhada muitas vezes no facebook, fez-me pensar que não há razões para medos nem coisa nenhuma... aliás, é precisamente por ter medo do que os outros pensam quem muita gente esconde o que sente e isso, que aconteceu comigo durante mais de uma década, não ajuda e só piora o que sentimos e a relação com os outros.
... aliás, é precisamente por ter medo do que os outros pensam que muita gente esconde o que sente e isso, que aconteceu comigo durante mais de uma década, não ajuda e só piora o que sentimos e a relação com os outros.
 
Tinha 17 anos quando senti que algo não estava bem e normal comigo.
Comecei a sentir medos que desconhecia, a ter reações estranhas com as pessoas à minha volta, a sentir-me ansiosa e revoltada muitas vezes... cheiros e vozes despertavam em mim sensações de bloqueio, falta de ar, pânico... muitas vezes sem entender porquê, muitas vezes em locais desadequados, sempre sem entender.
 
Na altura, estudante a terminar o 11.ºano e com um namoro estável de 1 ano, comecei a ser uma Marisa diferente. A minha personalidade passou a ser mais reservada, instável, controladora e acabei por, lentamente, afastar-me de tudo e de todos. O então "rapaz da minha vida" não aguentou a pressão e fugiu... mas só há pouco tempo sei que foi isso realmente que aconteceu.
 
O fim de um namoro que, de certa forma, me dava conforto, e muitas e muitas horas de estudo para conseguir manter o nível foram, há 17 anos atrás, as razões atribuídas a todos os disparates que fiz nesse verão... não me encontrava bem em lado nenhum. Sempre ansiosa, revoltada, triste, pensando no fim, com medo e vergonha de mim mesma, angustiada, tensa, descontrolada...
 
Lembro-me de, uma noite, num bar, me ter fechado na casa de banho e ninguém me conseguir tirar de lá... não conseguia sair, apesar de ninguém me prender e de ouvir a voz da minha mana, prima e amiga a chamarem por mim... parecia bloqueada, paralisada... queria ficar só, mas só totalmente e foi isso que me levou a fugir da música. Não tinha bebido nada além de coca-cola, nunca fumei, mas sentia que a minha cabeça ia explodir e o meu corpo nao respondia ao que, em 10% de cérebro racional, sabia que tinha de fazer... não foi fácil resolver.
 
Lembro-me também de ter fugido de perto dos meus amigos após uma simples discussão, depois de um concerto, e de ter andado sem rumo durante muito tempo, bloqueada em pensamentos baralhados e misturados com sensações e lembranças... o desbloqueio foi um carro que parou ao meu lado, um homem que me agarrou e a força que arranjei para gritar por eles e fugir dali...
 
Diagnóstico: depressão e princípio de esgotamento...
Causa: estudo em exagero e a tal besta de rapaz que me deixou...
Verdade: não sei qual é, mas estas foram apenas 2 supostas causas foram consequências das muitas que surgiram anos, após anos.
 
Fiz medicação e tive um 12ºano horrível. 2 meses de atestado, intercalado com aulas e dramas, notas mais baixas, amigos que fugiram, um amor que não ia embora. Fui superando, sempre medicada. Terminei o secundário com média de 16, entrei para um curso que não era na minha área, mas que sempre adorei: professora. Um verão de maluquice em que fui uma mistura do eu de antes e do que queria para depois. Continuação (sempre) de medicação. Poucas melhorias.
 
Conheci o meu marido e recuperei parte da autoestima. Mas as "cenas", os "pânicos", os "descontrolos"... continuaram. Mais curtos, menos graves, sempre com o "meu homem" por perto, segurando as pontas. Clinicamente era o meu médico "de família" quem me acompanhava e recuperei um pouco as forças, o suficiente para fazer uma vida normal.
 
Confesso, sem qualquer orgulho, que escondi a maior parte do que sentia da minha família mais próxima. Dos meus pais, irmãos, sogros... O meu homem sabia e eu, com medo de o perder, fiz de tudo para melhorar, agarrada aos medicamentos que, aos poucos, fui deixando de "precisar".
 
A verdade é que comecei uma vida "normal". Tirei o curso com sucesso, fiz novos amigos, casei, passeei muito com a minha cara metade, fiquei vinculada como professora, tive sempre boa relação com colegas, alunos e pais. Depois de estar sozinha com o meu Hugo, deixei a medicação e prometi a mim mesma nunca mais tomar nada. Errei, novamente.
 
A chegada dos filhos com 20 meses de diferença, uma casa nova e maior, maiores responsabilidades que assumimos quando somos bons profissionais, uma grande desilusão, a ilusão de que poderia ser super-mulher e que só iria dar orgulho à família se provasse que era capaz... casa, roupa, escola (horas lá e em casa), filhos... tudo tinha de ser perfeito e sem medicamentos. Não podia mostrar fragilidades, não podia perder o estatuto que ganhara, não podia ter limites... e fui piorando e perdi algumas coisas e tive novos ataques de pânico, novas recaídas... diversas, não assumidas, escondidas debaixo dos lençóis quando todos já dormiam, no silêncio do meu carro quando nele agarrava esó parava de conduzir quando não sabia onde estava, com choros profundos e punições a mim mesma por estar a cair de novo. Não queria tratar-me, nem ser novamente encarada de forma preconceituosa, ou não fosse a frase "os psiquiatras são para os malucos" a que mais me marcou naquele 12.ºano quando saiu da boca de uma colega em plena aula de psicologia.
 
Não queria, não aceitava que precisava, não podia estar assim, não podia precisar de medicação de novo, nao podia estragar o que estava a construir nem admitir ser pior mãe, pior professora ou pior pessoa por isso. Não, não e não. Também não queria engordar e sabia que isso iria acontecer com a medicação.
 
Mas a vontade de ser eu mesma de verdade, de me reapoximar da família, de poder dizer o que sinto, de me amar... essas vontades foram mais fortes, aliadas a admitir que poderia ter um problema de resolução simples e que a minha vida iria mudar. Primeiro, foi uma psicóloga amiga...a Dra. Carla fez-me perder o medo de encarar o que tenho... depois, algumas experiências falhadas com psiquiatras que nao me conseguiram fazer falar (o maior desafio) ou me fizeram ter vergonha do que dizia (e me encheram com muitos medicamentos e não acertaram com nenhum, a não ser nos 20 kgs que engordei!)... por fim uma médica recomendada por uma amiga: uma psiquiatra extraordinária, mulher de armas, que me fez um diagnóstico fantástico - a Dra. Paula. Medicação certa, atestado para descansar e dormir (muito), exercicios e uma recomendação: psicoterapia quando estivesse estável.
 
Diagnóstico: sofro de depressão crónica... não tem cura, mas tem forma de se viver com ela. As recaídas têm controlo, o acompanhamento é regular (conforme for necessário), propensão genética que não desaparecerá... ataques de ansiedade que dá para controlar e não chegarem a (voltar) a ser ataques de pânico... uma vida normal, mas nova, pela frente. A Dra. Maria João fez o resto... a psicoterapia encontrou uma grande zanga em mim e ajudou-me a perceder padrões na minha vida e a desbloque-á-los para seguir em frente, olhando para mim com olhos positivos.
 
Desde abril de 2011 que estou a ser "bem tratada" e a minha vida começa a mudar.
Nunca fiz mal a ninguém em todos estes anos. Afastei-me, sempre escondi o que sentia para não preocupar nem afastar ninguém... mas nem sempre consegui.
No entanto, as pessoas verdadeiras, com coração puro e que realmente me amam ou gostam de mim, estão cá e sentem-me melhor. E estou!!! E sou uma boa mãe! E sou uma boa filha! E so uma boa esposa! E sou uma boa professora! E sou uma boa amiga! E consigo dizê-lo e, mais fantástico, achar MESMO que é verdade. E isso é ótimo e está a mudar-me.
Sou doente de depressão crónica, devidamente acompanhada, mas consigo ter uma vida normal e amar como poucos amam. Não sou diferente por isso, nem pior. Poderia ter tensão alta ou diabetes, mas tenho depressão e já sei viver com ela. E não sou mais fraca por isso, nem menos capaz. Sou uma pessoa forte e linda e tenho pessoas fantásticas à minha volta.

4 comentários :

  1. Pessoas à tua volta que te amam, mais que a elas próprias!!! És uma heroina por seres forte! Gostava de ser como tu! Lembra-te ninguém te ama como eu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Gostava de ser forte todos os dias... ou de me sentir dessa forma.
      Um dia de cada vez, um passo de cada vez...

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  2. Sei do que falas Marisa. Sou uma amiga com quem há muito não tens grande contacto, no entanto conheci bem a tua história. Desabafaste muitas vezes comigo , e eu entendo-te muito bem. Também sofro de depressão . Não sei se no meu caso é crónica, mas sei o que sentes . Já tenho sentido muitas vezes todas essas sensações que descreves. Obrigado pelo teu testemunho e parabéns pela força e determinação que tens. Continua! És um ser humano único e especial. As maiores provações são dadas aos mais fortes . Beijinho

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    1. Obrigada, amiga!!!
      Como gostava de saber quem és para poder dar-te um daqueles grandes abraços.
      Beijo gigante

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